A Bíblia e os Evangélicos Hoje

Introdução

Existem hoje duas grandes correntes no mundo evangélico em relação à maneira de encarar a Revelação Bíblica. Neste trabalho, não vamos analisar os protestantes fundamentalistas e a inerrância, vamos nos concentrar na corrente evangélica que mais cresce no mundo, o pentecostalismo, hoje com cerca de meio bilhão de aderentes.
Como adventistas, sabemos que os pentecostais exercerão um papel fundamental no desfecho do grande conflito e que a credibilidade da Palavra de Deus vem sendo sutilmente ameaçada por aqueles que deveriam defendê-la. Analisar a maneira como os pentecostais encaram a Bíblia é extremamente importante para se compreender o seu comportamento.
A Revista Veja em seu número Especial do Milênio, coloca o Pentecostalismo como um dos 100 principais eventos do milênio. Data o início do fenômeno em 1901 através da afirmação de Charles Fox Parham “de que emitir sílabas incompreensíveis era um sinal do batismo do Espírito Santo.” A revista continua, “Isso não poderia ter passado de conversa se o pregador negro William Joseph Seymour não tivesse ouvido Parham pela porta aberta de sua escola bíblica de Houston, Texas.” Porém, o que mais me chamou a atenção na reportagem da revista foi a afirmação do articulista que exprime uma realidade fundamental em relação ao pentecostalismo, ou seja, ele “é uma religião do coração. Sendo a experiência pessoal de Deus tão fundamental quanto a doutrina, trata-se de fé adaptável...” (Revista Veja, Especial do Milênio, página 52).
Fundamentalmente, as religiões pentecostais se atêm à experiência em detrimento da doutrina bíblia. Não é tão importante para o crente pentecostal aquilo que está escrito, mas as impressões interiores, ou evidencias da voz do Espírito no coração, mesmo que essas impressões estejam em direta contradição ao que está escrito.
A maneira como encaram a Bíblia é o reflexo da crise pela qual a Revelação passou nos séculos XIX e XX, mas com raízes nos séculos XVII e XVIII.

Definição

A expressão “Revelação”, significa: expor, abrir, manifestar, pôr à vista, descobrir, revelar. Sua origem etimológica é o Latim. A palavra se origina de duas outras: “Velo”, que significa cobrir, pôr um véu; e “re”, afastar. Por tanto, “Revelação”, literalmente seria “afastar o véu” (I Coríntios 2:9, 10; I Samuel 9:9; Deuteronômio 13:1). A “Revelação”, por tanto, é um dom divino, através do qual Deus se manifesta ao homem. Um conhecimento que vem de fora e traz consecuções que não podem ser alcançadas puramente pela razão ou intuído pelo homem sem o auxílio da divindade.
O Salmo 19, expressa as duas formas básicas através das quais, Deus se comunica com o homem: A Revelação Geral (Sal. 19:1-6) e a Revelação Especial (Sal. 19: 7-13). A Revelação Geral é a manifestação das obras de Deus através da natureza, ou seja, o homem pode ter algum conhecimento de Deus pela contemplação das obras criadas: O céu, as estrelas, o mar, o desabrochar de uma flor, o nascimento de uma criança, etc.
Porém, o Seu plano particular para salvar o homem e a Sua intervenção nos negócios deste mundo só podem ser conhecidos e compreendidos pela Revelação Especial, ou seja, pela Palavra de Deus comunicada ao homem através das Sagradas Escrituras.

O Testemunho da Própria Bíblia

A Bíblia, por tanto, tem conteúdo objetivo, uma mensagem dirigida aos homens com o fim de apresentá-los o plano de Deus. Constitui a Sua vontade expressa em palavras humanas, pois é dirigida ao homem.
No Velho Testamento, 130 vezes ocorre a expressão: “Veio a mim a palavra do Senhor”; 359 vezes, “Assim diz o Senhor” e 3808 vezes, expressões sinônimas ou paralelas: “Diz o Senhor”; “veio a mim a palavra do Senhor”; “veio a mim a palavra do Senhor, dizendo”.

A Crise da Revelação Através dos Séculos

No século XIII, os escolásticos, na sua maioria monges dominicanos, ocupavam-se com três questões básicas: a existência, a essência e os atributos de Deus. O principal e mais famoso de todos foi Tomás de Aquino. Através de seus estudos chegaram a conclusão de que Deus pode ser conhecido pela observação da natureza, pois a razão humana é competente para compreende-lO. Essa ficou conhecida como teologia natural e abriu as portas para o racionalismo.
Tanto Lutero quanto Calvino esposavam a idéia de que a razão pode chegar a algum conhecimento de Deus, porém este conhecimento é sempre incompleto e inadequado. Lutero fez a seguinte declaração: “Deus em sua própria natureza e majestade deve ser deixado de lado; neste aspecto, nada temos haver com Ele... [nos relacionamos com Ele] como se apresenta vestido e revelado em Sua Palavra...” (Amin Rodor, Doutrina da Revelação e Inspiração, página 3).
Lutero também enfatizou a sola scriptura (as Escrituras somente) e a tota scriptura (toda a Escritura), ou seja, somente as Escrituras constituem a regra de fé e prática para os cristãos e toda ela deve ser normativa, muito embora ele tenha enfrentado dificuldades para aceitar algumas porções da Palavra de Deus, como foi o caso da Epístola de Tiago.
No final do século XVII e início do XVIII, o mundo entrou na era da razão. Os deístas propunham que a religião verdadeira está baseada na razão. Para eles a razão somente é competente no reino da verdade. Enfatizavam a transcendência absoluta de Deus, criam que a natureza e a razão eram as autoridades supremas, mas que a Bíblia não acrescenta nada que não possa ser compreendido pela razão. Rejeitavam, por tanto, a Revelação Especial. Sua atitude era uma espécie de retorno ao Escolasticismo, mas com uma diferença básica, eliminaram completamente a necessidade da Revelação Especial.
“O surgimento do Iluminismo, no século 18, levou os pensadores ocidentais a relacionar a religião, em suas mais diversas manifestações, com ignorância.” (Dornelles, Transe Místico, página 51). Para os racionalistas o mundo havia alcançado a sua maturidade e a razão era o meio por excelência de adquirir conhecimento e se transformar no próprio “instrumento de desenvolvimento” (Idem).
“Com Immanuel Kant (1724-1804), o Iluminismo atingiu o seu auge. ‘O Iluminismo é a emergência do homem de sua imaturidade. É o homem aprendendo a pensar por si mesmo, sem nenhuma dependência de autoridade exterior, Bíblia, Igreja ou Estado’” (Amin Rodor, Doutrina da Revelação e Inspiração, página 4).
Mas Kant golpeou mortalmente o Deísmo, pois ensinava que “a razão pura não pode encontrar a Deus. Este é encontrado apenas pelas demandas práticas da vida moral” (Idem), ou seja, enfatizou a voz da consciência, as demandas éticas para a descoberta da verdade (que não pode ser encontrada pela razão pura). No entanto, golpeou também a ortodoxia protestante, “invalidando qualquer sorte de comunicação vinda de Deus (a verdade também não é descoberta pela Revelação)”.
“No dia 10 de agosto de 1793, uma multidão se reuniu na Praça da Bastilha, em Paris, para a primeira festa em homenagem à nova deusa ocidental – a Razão -, aclamada então pela cultura ocidental como instrumento de libertação. No centro da praça foi erguida uma estátua colossal da deusa” (Dornelles, Transe Místico, página 53). A renúncia do bispo de Paris despertou um forte sentimento anticlerical que já vinha se desenvolvendo, alguns membros da Comuna decidiram prestar homenagem à deusa da Razão num lugar que representasse a religião, “a catedral de Notre-Dame. Como parte da cerimônia, a porta do templo se abriu, dando passagem a uma figura feminina, com vestido branco e manto azul. Em trajes deslumbrantes, a atriz Thérèse Angelique Aubry representava a deusa Razão” (Idem). Essa foi a forma zombeteira de espezinhar os valores religiosos e colocar em relevo aquilo que agora era considerado mais importante e acariciado pelo homem. E para isso, a figura de uma mulher (representando a razão) no altar de uma igreja significava o ápice do movimento.
Friedrich Schleiermacher (1768-1834). Teólogo alemão, Schleiermacher foi considerado o pai da Teologia Liberal. Sua intenção era reabilitar a religião nos círculos intelectuais, tendo em vista que o racionalismo o deixara desgostoso e a alternativa de Kant era insatisfatória. “Procurou a essência da religião em geral e do cristianismo em particular na experiência. A religião está baseada em sentimento intuitivo, não em uma revelação objetiva ou em dogma. O elemento subjetivo tornou-se dominante: a revelação emerge de dentro” (Amin Rodor, Doutrina da Revelação e Inspiração, página 4).
Para Schleiermacher, os debates sobre as provas da existência de Deus, a autoridade das Escrituras ou sobre milagres, ficam fora dos limites da religião, pois o coração desta é o sentimento (Gefuhl), por tanto, a religião está baseada em sentimentos e na intuição. É o sentimento de absoluta dependência que dá lugar à idéia de Deus. De acordo com Schleiermacher, todas as religiões “repousam nesta mesma base experiencial e podem, no mesmo sentido, reivindicar revelação” (Idem).
O cerne de sua formulação teológica é que a Revelação não tem conteúdo objetivo comunicado por Deus, mas é uma experiência interior. Dessa forma, a religião é independente da filosofia, da ciência, da razão e da metafísica. Enfatizava a imanência divina, por isso anulava a necessidade de Revelação ou de profetas, pois o homem, para ele, é uma extensão de Deus e não está separado Dele.
Georg Hegel (1790-1831). Foi contemporâneo de Schleiermacher. No nível filosófico identifica a Revelação com a experiência religiosa encontrada em todas as religiões. Deus pode ser encontrado sem qualquer necessidade de uma revelação, como exige o conceito da transcendência.


A Nova Ortodoxia e o Conceito de Revelação no Século Vinte


As idéias de bondade e de racionalidade inerentes do homem foram questionadas e abandonadas quando irrompeu a Primeira Guerra Mundial, mas o contexto abriu espaço para o existencialismo que já havia sido preconizado por Soren Kierkegard. De qualquer forma, uma anomalia foi curada apenas para dar espaço à outra deficiência do pensamento humano.
Em 1923, Martin Buber, filósofo judeu alemão publicou o livro, “I and Thou”, onde propôs a existência de dois reinos de relacionamentos:
a) I e It – Eu e Coisa
b) I e Thou – Eu e Tu (pessoa)
Buber dizia que o homem ocidental, dominado pelo método empírico ou científico, vê o mundo como uma coleção de coisas. Que abstraímos, medimos, analisamos, identificamos, caracterizamos e projetamos, e que aplicamos esse método às pessoas, ou seja, o homem ocidental tende a “coisificar” as pessoas e até mesmo a Deus. Para ele a mais alta forma de relacionamento (I e Thou) é aquele que acontece entre o homem e Deus, quando o ser humano deve esvaziar-se de qualquer elemento “It” (coisa). Embora com apenas 90 páginas, o livro tem uma linguagem densamente filosófica.
Para Buber, o homem moderno é um observador distante no que tange aos relacionamentos. Para se conhecer alguém, é necessário um relacionamento íntimo. No “I e Thou” encontra-se a mais alta expressão de relacionamento, completamente destituído e esvaziado do “It” (coisa), ou seja, no encontro com Deus, não há envolvimento intelectual, característico do método científico.
As idéias de Buber surtiram efeito no pensamento de Emil Brunner, teólogo calvinista, conhecido como pai da Teologia do Encontro. O pensamento de Buber exerceu considerável influência no mundo cristão através de Brunner que cria na Queda do homem, na transcendência de Deus, em Jesus Cristo como a segunda pessoa da Trindade, na morte de cruz, porém tomou a idéia básica do relacionamento “I e Thou” e desenvolveu as suas implicações para a fé Cristã. Escreveu dois livros com propostas similares: “Truth as Enconter” (A Verdade como Encontro) e “Revelation and Reason” (A Revelação e a Razão), aplicando as idéias de Buber ao Cristianismo e afetando diretamente a doutrina da Revelação.
Brunner nega que a Revelação tenha conteúdo específico, que ela não é a comunicação de Deus ao profeta, mas o resultado do impacto do encontro. Para ele, o que está escrito é apenas o testemunho do profeta quanto ao seu encontro com Deus. As Sagradas Escrituras passam a ser apenas o testemunho do profeta, mas não é Revelação, mas a sua projeção primária. Por isso, para ele “as palavras da Bíblia não podem ser igualadas às palavras de Deus. A única revelação de Deus é Jesus Cristo, a Palavra ‘par excelence’” (Amin Rodor, Doutrina da Revelação e Inspiração, página 5).
Ainda afirmava que as Escrituras não têm caráter normativo, tendo em vista que é apenas uma coleção de testemunhos de fé com o propósito de desenvolver no crente o mesmo tipo de experiência e que a revelação ocorre unicamente quando Cristo e Eu nos tornamos contemporâneos. Isto é, a Bíblia contém a Palavra de Deus, mas ela não é a Palavra de Deus, por isso o termo “Palavra” não pode ser aplicado a doutrinas, pois estas não são relevantes, ou mesmo adequadas para todas as pessoas, atentas aos “sinais dos tempos” (Idem).


Conclusão

O pentecostalismo surgiu nesse ambiente, quando o mundo evangélico achava-se embriagado pela Teologia do Encontro. Essa é a razão pela qual um crente pentecostal dá mais credibilidade às suas impressões interiores, às suas emoções do que um “Assim diz o Senhor!”.

Pastor Josimir Albino do Nascimento.

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