Sábado, Uma Porta de Entrada, Não Um Muro de Separação

Introdução

Todo bom adventista encara o repouso sabático como uma bênção. Esse dia corresponde a um oásis no tempo, tão necessário à alma, quanto um copo de água fresca para um viajante sedento do deserto.
Por outro lado, os que não guardam o Sábado encaram a sua observância como uma prática legalista. Alguns evangélicos vêem no Sábado uma barreira posta pelos adventistas contra uma aproximação maior com os irmãos de outras denominações, e até afirmam que Jesus já derrubou esse muro de separação, aplicando equivocadamente Efésios 2:14 à observância do quarto mandamento.
O apóstolo Paulo assevera em relação a Jesus: “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade” (Efésios 2:14). O Comentário Bíblico Adventista interpreta: “A imagem pictórica pode ter sido derivada da barreira existente no templo que separava o pátio dos gentios do pátio dos judeus” Nichol, Francis D., The Seventh-day Adventist Bible Commentary, (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association) 1978.

O Sábado Como Centro da Lei Divina

A maneira como os judeus encaravam a religião afetou o seu relacionamento com os outros povos. Deus esperava que a piedade e a religião prática de Seu povo, fosse um testemunho e uma lição objetiva para os outros. Não somente a observância do Sábado, mas todos os outros aspectos do judaísmo deveriam ser uma porta de entrada para o futuro reino messiânico.
O antigo povo de Deus ganhou um lugar privilegiado entre as nações:
“Para Israel, o Sábado tornou-se um teste de obediência e um sinal de lealdade (Êxodo 16:4, 22, 23). Este episódio aconteceu um mês antes da entrega da lei no Sinai. Quando a lei foi proclamada no monte, o Sábado foi posto no próprio centro, pois há 146 palavras em cada lado da afirmação “sétimo dia é o Sábado”(KJV). O Dr. Adam Clarke afirmou que a lei foi pronunciada a princípio no Sinai no dia de Sábado e que o Pentecostes era um memorial desse evento. A lei foi posta no centro da arca; a arca, no centro do lugar santíssimo do santuário, que ficava situado no centro da tribo sacerdotal, a qual estava no interior do acampamento de Israel, e o Senhor colocou Israel no centro do Mundo.” Taylor G. Bunch, The Exodus and Advent Movements In Type and Antitype, pp. 13.

A própria posição geográfica dos hebreus denota uma preocupação divina quanto ao papel missionário do povo israelita, mas Israel falhou, não somente quanto à missão, mas principalmente quanto ao seu relacionamento com Deus, o que afetou e mascarou os elementos e a prática da sua religião. Podemos dizer que um dos mais preponderantes desses elementos era a observância do Sábado:
“A medida em que os judeus se afastavam do Senhor, e falhavam em tornar a justiça de Cristo sua própria pela fé, o Sábado perdeu o seu significado para eles. Satanás estava procurando exaltar-se e desviar os homens de Cristo, por isso trabalhou para perverter o Sábado, tendo em vista que este é o sinal do poder de Cristo.
Os líderes judeus realizaram a vontade do Diabo ao circundar o dia de repouso divino com requerimentos opressivos. Nos dias de Cristo, o Sábado havia se tornado tão pervertido que sua observância refletia o caráter de homens egoístas e arbitrários, ao invés do caráter amoroso do Pai celestial.
Os rabis virtualmente representavam a Deus como estabelecendo leis que eram impossíveis para o homem obedecer. Levavam o povo a considera-Lo como um tirano, e a pensar que a observância do Sábado, como Ele requeria, tornava as pessoas duras de coração e cruéis.
Fazia parte da obra de Cristo esclarecer essas falsas concepções. Embora os rabis seguiam-No com hostilidade sem misericórdia, Ele nem sequer parecia conformar-se aos seus requerimentos, mas ia em frente guardando o Sábado de acordo com a lei de Deus.” Ellen Gould White, O Desejado de Todas as Nações, (Versão em Inglês – Tradução Livre), pp. 283.

O Anti-Semitismo Um Fator de Separação

Depois da destruição de Jerusalém, a animosidade dos romanos contra os judeus aumentou sensivelmente devido a revolta de Bar Kochba no deserto da Judéia. O imperador empreendeu uma cruel perseguição que incluía a proibição da observância do Sábado. O Dr. Samuele Bacchiocchi faz um extenso comentário sobre o assunto em sua tese, “From Sabbath to Sunday”, demonstrando que o anti-semitismo foi uma das fortes razões para o abandono da observância do Sábado pelo mundo cristão.
“Adriano (117-138 AD.) proibiu aos judeus, sob pena de morte, entrar na cidade de Jerusalém, agora chamada de Aelia Capitolina. Depois de massacrar impiedosamente a revolta de Bar Kochba (132-135 AD.), reconstruiu a cidade de Jerusalém sobre as suas próprias ruínas e na área do antigo templo, erigiu um novo templo em homenagem a Júpiter, uma deidade solar.
As fontes rabínicas normalmente referem-se às restrições impostas por Adriano e seu governo, como a era da perseguição – shemad ou a era do edito – gezarah.
Adriano proibiu a observância do Sábado, as festividades, o estudo da Torah e a circuncisão. De uma maneira particular, a observância do Sábado foi a prática mais atacada.” Samuele Bacchiocchi, From Sabbath to Sunday, citado em, “A Deificação do Sol e a Origem da Observância do Domingo”, Josimir A. Nascimento (Editora ADOS), 1998, pág. 72.

Os cristãos primitivos, a fim de não serem identificados com os judeus, procuraram afastar-se das práticas religiosas que pudessem atrair sobre eles as perseguições engendradas contra aqueles. O abandono da observância do Sábado, está ligado ao afastamento da fé, resultado de muitos fatores associados, mas que têm na antipatia aos judeus o seu maior motivo.

O Papel dos Adventistas do Sétimo Dia

Os adventistas são conscientes quanto ao chamado de Deus para uma obra reformatória (Isaías 58). Em face disso, existem hoje em nossas fileiras duas categorias de cristãos: Os que usam essa prerrogativa para atacar outros grupos religiosos (atitude que não reflete a filosofia da Igreja), e os que compreendem melhor o seu papel como reformadores e, assim pregam as doutrinas ensinadas pela Igreja Adventista sobre uma base Cristocêntrica, imitando a abordagem de nosso Senhor Jesus Cristo:
“Na obra de ganhar almas são necessários grande tato e sabedoria. O Salvador nunca suprimia a verdade, mas sempre a pronunciava com amor. No Seu contato com outras pessoas, exercia o maior tato, e era sempre bondoso e solícito. Nunca era rude, jamais dizia uma palavra severa desnecessariamente, ou infligia dor sem motivo a uma alma sensível.
Não censurava a fraqueza humana, porém destemerosamente denunciava a hipocrisia, a descrença e a iniquidade, no entanto, havia lágrimas em Sua voz quando repreendia com firmeza.
Nunca tornava a verdade cruel, mas sempre manifestava uma profunda ternura pela humanidade. Todas as pessoas eram preciosas em Sua vista. Portava-Se com dignidade divina, muito embora Se curvasse com a mais terna compaixão e interesse diante de cada membro da família de Deus. Via em todos, almas as quais era prerrogativa de Sua missão, salvar” Ellen Gould White, Obreiros Evangélicos (Versão em Inglês – Tradução Livre), pp. 117.

Quando o Sábado é apresentado sob uma perspectiva Cristocêntrica, e não como simples objeto de lei, toda a sua beleza como memorial da Criação e figura tipológica do descanso eterno atrai aos sinceros filhos de Deus para um relacionamento peculiar desfrutado apenas por aqueles que se deleitam no Seu santo dia.Com essa espécie de abordagem ficará mais fácil vê-lo como uma porta de entrada e não como um muro de separação.

Duas Categorias de Cristãos

Assim como no “arraial” adventista existem duas categorias de crentes, também ocorre no mundo evangélico: Os que são intolerantes para com aqueles que pensam de forma diferente, e que assumem uma atitude isolacionista; e a outra categoria, que embora não concorde com todas as posições dos adventistas, procuram compreender o seu ponto de vista.
Talvez a maior razão do mundo evangélico não aceitar a observância do Sábado como praticada por grupos cristãos (como é o caso dos adventistas), seja a má compreensão do relacionamento entre a lei e a graça.
Como pode o adventista do sétimo dia pregar a graça e ainda ser legalista? Qualquer evangélico que conviva com um de nós saberá que a doutrina mais importante da Igreja Adventista do Sétimo Dia é a justificação pela fé. O que nos faz parecer legalistas aos olhos de outros cristãos é o fato de observarmos o quarto mandamento da lei de Deus. Porém todo bom evangélico entende ser uma violação da lei divina curvar-se diante de uma imagem de escultura, dizer o nome do Senhor em vão, adorar outros deuses, adulterar, ou desonrar aos pais.

A Função Primordial da Lei Divina

A lei divina tem uma função vetorial, isto é, faz o pecador sentir a necessidade de mudança. Usando a terminologia bíblica, serve de aio ou conduto (Gálatas 3:24). As pessoas só aceitam a Cristo como Senhor e Salvador depois que se reconhecem pecadoras, e o pecado é a violação da lei de Deus (I João 3:4). Uma das grandes provisões do evangelho é a dotação de capacidade para realizar toda a vontade divina. Poderíamos consubstanciar esta afirmação desta maneira: A “dotação de capacidade” corresponde a graça; a “realização da vontade divina” é a observância da lei de Deus por aquele que foi por Ele capacitado (Filipenses 2:13). Mesmo nos dias anteriores à primeira vinda de Cristo a salvação se efetuava assim.
“Nos tempos do Velho Testamento o pecado estava ligado à violação dos mandamentos de Deus. Neemias afirma claramente: “... confessando eu os pecados dos filhos de Israel, que temos cometido contra ti; sim, eu e a casa de meu pai pecamos; na verdade temos procedido perversamente contra ti, e não temos guardado os mandamentos, nem os estatutos, nem os juízos, que ordenaste a teu servo Moisés...” (Neemias 1:6, 7). Jeremias 44:23 liga o pecado com a desobediência a lei de Deus. Uma afirmação nítida do que representa o pecado pode ser encontrada no livro de Levítico: “Se alguém pecar, fazendo qualquer de todas as coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem...” (Lev. 5:17). J. R. Spangler, And Remmber – Jesus is Coming Soon, Associação Ministerial da Conferência Geral, (Pacific Press Publishing Association, USA), 1977, pág. 35.

“O grande ponto em questão não é o da lei ou a graça, mas ao invés disso, o enfoque real é a lei e a graça. A graça de Deus está baseada em Sua lei, a qual constitui o fundamento sobre o qual Sua graça é construída.” J. R. Spangler, And Remmber – Jesus is Coming Soon. Idem, pág. 37.
Na arca da aliança, em cujo interior permaneciam as tábuas da lei, havia uma tampa chamada propiciatório, uma figura tipológica de Jesus (I João 2:2). A razão pela qual essa peça ficava sobre a lei era uma indicação aos filhos de Israel de que o quebrantamento da lei divina demandava a propiciação com sangue (Hebreus 9:22).

Conclusão

Jesus pagou o preço pelos nossos pecados e tornou possível a todo crente obedecer a Sua lei de amor. No coração dessa lei fincou o marco de Seu poder criador, um lembrete aos seres humanos que se ocupam de tantas coisas e se esquecem de seu Deus. O Sábado só será um muro de separação para os que são esquecidos, porém para os que estão lembrados, será uma porta de entrada!

Pastor Josimir Albino do Nascimento.

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