Vaticano e Casa Branca: uma aliança profética

Wendel Lima

Desde o ataque terrorista em 2001, talvez nenhum outro acontecimento tenha mexido tanto com o imaginário dos adventistas quanto a morte de João Paulo II. A iminente renúncia ou morte de Wojtyla e depois, a eleição de Bento 16, favoreceram com que alguns fizessem previsões apocalípticas equivocadas, e outros, escorregassem para o sensacionalismo. Porém, os últimos acontecimentos políticos e religiosos parecem compor um quadro singular na História. Afinal, Bento 16 será o último papa? Para responder essa e outras perguntas, Kerygm@ conversou com o professor e jornalista Vanderlei Dorneles. Ele é mestre em Teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), e mestre em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).

Os artigos do professor Dorneles têm se popularizado entre os internautas, por relacionarem o atual contexto político-religioso com a interpretação adventista das profecias. Atualmente, Dorneles é professor de Jornalismo no Unasp, Campus Engenheiro Coelho (SP) e diretor da Unaspress, editora da mesma instituição. Ele é casado com a professora Luciene e tem dois filhos: Elina e Weber.

Kerygm@ - A reação de muitos diante da morte do papa demonstrou o quanto a religião ainda é importante para a maioria das pessoas. Por que em pleno século 21 a humanidade parece ter redescoberto a fé?

Prof. Dorneles - Muita gente achava, antes do final do século 20, que o interesse religioso fosse fruto da chegada do novo milênio. Isso colaborou, mas não foi o fator principal. A forte presença da religião é sem dúvida um refluxo. As culturas ocidentais parecem estar atemorizadas pelas crises econômica, social, política, moral, ecológica, e isso tem feito as pessoas se voltarem para Deus em busca de segurança. O fenômeno em que se transformou o velório de João Paulo II é uma evidência de que o mundo está ansioso por Deus. A figura religiosa e política de Karol Wojtyla catalisou boa parte desse despertamento.

Kerygm@ - João Paulo II procurou conquistar inimigos históricos do catolicismo, como os judeus, islâmicos e protestantes. Em que sentido João Paulo II foi um restaurador de feridas? Quais são as implicações proféticas do pontificado de Carol Wojtyla?

Prof. Dorneles - Esse papa tinha uma visão muito clara do papel da Igreja Católica no mundo atual. Ele sabia onde a Igreja deveria estar e como ela poderia conseguir isso. O escritor jesuíta Malachi Martin, em seu livro The keys of this blood (As chaves deste sangue), afirma que João Paulo II teria recebido uma visão da virgem Maria de que ele, o papa, colocaria a Igreja no centro da Nova Ordem e ocuparia a função de pastor e juiz universal. De posse desta visão do papel universal da Igreja, ele tentou tanto quanto pôde reparar as brechas históricas que minavam o poder global da Igreja. Buscou restaurar as relações com os protestantes, judeus, islâmicos, com a ciência e com o mundo político. A presença de centenas de lideranças políticas e religiosas de diversos credos em seu velório foi uma evidência de que ele conseguiu seu intento em grande medida. Mesmo assim, a figura de Karol Wojtyla, em si mesma, nada tem de natureza profética. Não se pode afirmar que seria o último nem o penúltimo papa. Mas é inegável que seu pontificado contribuiu grandemente para restaurar as feridas da Igreja e naturalmente para iniciar o processo de restauração da ferida de morte do papado, isto é, a perda de seus poderes políticos, imposta pela Revolução Francesa no século 18.

Kerygm@ - Em 1978, quando Carol Wojtyla iniciou seu papado, o comunismo era visto como um grande obstáculo para o cumprimento das profecias. Hoje, a barreira parece ser outra: o Islamismo. Como o Mundo Oriental será conquistado pelo Bispo de Roma?

Prof. Dorneles - João Paulo II foi o primeiro papa a entrar numa mesquita. Ele conseguiu granjear a simpatia de muitos chefes islâmicos, tanto religiosos quanto políticos. A primeira missa de seu sucessor contou com a presença de diversos líderes islâmicos, com os quais Bento 16 esteve reunido nos dois dias seguintes. Existe hoje uma ampla via de relações entre Catolicismo e Islamismo. Quanto ao Oriente, propriamente dito, creio que o caminho de aproximação ocorrerá por meio das relações comerciais mantidas com os Estados Unidos. A China ainda é muito fechada para a religião cristã. Foi um dos poucos lugares em que a missa de sepultamento de Wojtyla não foi transmitida. Mas ela tem uma relação econômica dependente e essencial com os Estados Unidos. Certamente a América poderá ser uma cunha para essa entrada da Igreja de Roma naquela cultura. De toda forma, talvez não possamos falar de conquista, mas de aproximação ecumênica.

Kerygm@ - João Paulo II ficou conhecido como o “papa da mídia”. Ratzinger tem uma fama de ultraconservador e tímido. Como o Vaticano tem trabalhado a imagem pública de Bento 16?

Prof. Dorneles - A imprensa já tem dado ao papa a imagem de um líder sábio e de pastor universal. Outro dado que tem sido enfatizado é a simpatia dos jovens pelo papa. A primeira viagem anunciada de Bento 16 foi à Alemanha para um encontro de jovens católicos. Se Ratzinger fosse o papa a começar seu pontificado em 1978, não teria muita presença na mídia. Mas como ele é o sucessor de João Paulo II, que abriu as portas do mundo secularizado para a Igreja, Bento 16 pegou carona nessa popularidade. Ele tem aparecido. A mídia está fazendo diversas inserções dele.

Kerygm@ - Bush disse que vê em Bento 16 “um servo do Senhor”. Ademais, a Casa Branca e o Vaticano parecem se identificar no discurso moralista. Qual será a ênfase do ecumenismo e da união entre Igreja e Estado?

Prof. Dorneles - Os religiosos americanos que integram o governo Bush e a força evangélica por trás da militância do partido Republicano se dizem conscientes da necessidade de reformas morais, que possam conter os avanços relativistas e liberalizantes da contracultura, e entendem que o Estado não pode mais continuar numa postura liberal como tem sido até aqui. Eles querem que o poder civil intervenha, colocando freios e criando instrumentos para contenção da onda destruidora da moral, da família e da religião. As encíclicas do pontificado de João Paulo II, muitas delas feitas por Ratzinger, vêem o papel do Estado dessa mesma forma. Portanto, há um amplo contexto preparado para uma atuação conjunta entre Estados Unidos e Vaticano em função de uma reforma religiosa e moral com perspectivas de intolerância para com os dissidentes dessa união entre Igreja e Estado.

Kerygm@ - O senhor afirma que uma “onda conservadora” tem influenciado a política americana. Como se explica esse fenômeno social das últimas décadas?

Prof. Dorneles - O atentado às torres gêmeas e o avanço do terrorismo despertaram os americanos para a necessidade de mais segurança. Contribuíram também para criar uma certa consciência de que a América poderia estar sendo destituída das bênçãos e proteção divinas, como sempre creram ter. Essa consciência de que a América estava chegando ao fundo do poço na destruição dos valores morais e religiosos, começou a se fortalecer na década de 1990, quando o ex-presidente Bill Clinton confessou diante das câmeras de televisão que tivera um caso amoroso com uma jovem na Casa Branca. Os americanos viram nesse escândalo a realidade de que a onda liberalizante, criada pela contracultura nos anos 1960, estava minando valores muito caros para eles, como religião, autoridade e tradição. Reconheceram então ter chegado a hora de uma retomada, de uma reforma. A onda liberal iniciada nos anos 1960 precisava então ser sucedida por uma onda conservadora. É o processo de emancipação sendo substituído por um novo momento de regulação, do Estado sobre a sociedade.

Kerygm@ - Qual é a visão religiosa de Bush acerca dos últimos acontecimentos da História?

Prof. Dorneles - A onda conservadora é uma espécie de credencial da missão profética do governo americano. Esses religiosos por trás da política republicana têm uma visão muito literalista das profecias bíblicas. Eles entendem que as profecias do Antigo Testamento acerca de Judá e de Jerusalém terão um cumprimento literal. Esse cumprimento se mistura com a profecia da segunda vinda de Cristo, resultando numa expectativa de que Jesus deverá descer sobre o Monte das Oliveiras para um primeiro contato com os judeus, com quem vai estabelecer seu reinado messiânico. Para isso ocorrer, crêem eles, os judeus precisam estar em Israel e os terroristas (os anticristos) precisam ser combatidos. George W. Bush acredita que tem uma missão profética no sentido de preparar o caminho para a segunda vinda de Cristo. Essa missão envolve o combate ao terrorismo e a manutenção do Estado de Israel. As políticas externas americanas relacionadas a Israel e aos palestinos confirmam essa visão.

Kerygm@ - Em que momento os adventistas deverão pregar mais explicitamente contra as doutrinas da Igreja de Roma?

Prof. Dorneles - Os adventistas não devem pregar contra nenhuma doutrina em particular. Devemos manter uma relação de simpatia com todas as religiões dando evidência do amor de Cristo entre e sobre nós. Essa é uma condição para que a Igreja de Deus possa atrair os fiéis para seu meio. Devemos pregar a verdade bíblica, a salvação pela graça de Cristo unicamente, a Criação bíblica, a imortalidade condicional da alma, a santidade do sábado. Essas verdades vão, no momento certo, desmascarar o erro, onde quer que ele esteja. Quanto mais ousado o erro se tornar, tanto mais os inimigos de Deus tornarem explícitos seus atos enganosos, mais alto deve a Igreja de Deus levantar o estandarte da verdade. A verdade sozinha esclarece e desmascara o erro.

Kerygm@ - Qual será o papel dos meios de comunicação de massa no cumprimento das profecias bíblicas?

Prof. Dorneles – A mídia vai potencializar a proclamação da última mensagem de salvação. Quando o mundo for sacudido pela pregação das verdades bíblicas anunciadas no contexto da ascensão dos poderes imperialistas americanos e romanos juntos, todas as pessoas verão essas verdades como altamente coerentes. Ellen White afirma que no contexto do engano final, a verdade terá um poder de atração nunca visto antes. Vamos ver gente inteiramente secularizada reconhecendo a legitimidade das verdades bíblicas e crendo nelas. Isso vai ser algo impressionante, de causar arrepio.

Kerygm@ - Afinal, Bento 16 será o último papa? Por quê?

Prof. Dorneles - Ninguém pode saber. Não há períodos proféticos definidos posteriores ao final dos 2.300 e 1.260 anos de Daniel e Apocalipse. No período do tempo do fim, iniciado em 1798 e 1844, Cristo está às portas, não sabemos, porém, quando Ele será visto. Os acontecimentos, contudo, indicam que está muito próximo mesmo.

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