O que o criacionismo não é

O ano de 2009 está sendo marcado por muitas discussões a respeito da controvérsia entre criacionismo e evolucionismo. E não é pra menos: neste ano se comemora o 200º aniversário de nascimento do naturalista inglês que é considerado “pai” da evolução, Charles Darwin. Desde que foi publicado o livro A Origem das Espécies, há 150 anos, a teoria da evolução vem sofrendo dois tipos de ataques: os bem fundamentados, que apontam as insuficiências epistêmicas da teoria, e os despropositados, que deixam de reconhecer aspectos relevantes e factuais do darwinismo. De modo semelhante, o criacionismo é alvo de críticas quase sempre infundadas, decorrentes da má compreensão do que sustentam os defensores do modelo.

Todos sairiam ganhando se se deixassem de lado motivações ideológicas e fossem verificados – sob o melhor rigor científico – os fatos e em que aspectos eles favorecem esse ou aquele modelo.
Por isso, é necessário desfazer alguns mal entendidos repetidos por gente que adora uma boa polêmica. Eis alguns deles:

O criacionismo é anticientífico

Para Earl Aagaard, professor de Biologia da Universidade Adventista do Sul, em Collegedale, Tennessee, EUA, a fonte de discórdia reside em especulação histórica. “Os cristãos em geral, e os adventistas em particular, têm muito pouca dificuldade com os resultados empíricos da ciência”, diz Aagaard. “As disputas (…) se manifestam no lado histórico das coisas – em Arqueologia, Paleontologia, Geologia, etc., onde o procedimento consiste em coligir dados e então narrar uma história para explicá-los.”

Nahor Neves de Souza Jr. é geólogo e doutor em engenharia pela USP. Como professor e pesquisador universitário, nos últimos 26 anos (metade deles dedicados ao ensino e à pesquisa em duas conceituadas universidades, USP e Unesp), ele tem procurado conhecer em profundidade os três modelos principais: evolucionismo, criacionismo e a teoria do design inteligente. Esse estudo específico e comparativo o induziu a buscar definições mais precisas e epistemologicamente mais corretas para os modelos em questão. Ele elaborou um esquema bastante sintético, mas esclarecedor, a respeito dos três paradigmas:

Evolucionismo = conhecimento científico + naturalismo filosófico

Criacionismo = conhecimento científico + teologia bíblica

Design inteligente = conhecimento científico + argumento teleológico

Esse esquema ajuda a compreender que os três modelos têm um componente científico e outro metafísico. Segundo Nahor, “qualquer paradigma que busca compreender eventos pretéritos únicos e irreproduzíveis (cientificamente não testáveis ou não falseáveis), utilizará, necessariamente, argumentos científicos e metafísicos na construção de modelos. Ou seja, os três paradigmas considerados [existem outros, como o criacionismo islâmico, o criacionismo progressivo, o evolucionismo panteísta, o evolucionismo teísta, etc.] podem, genericamente, ser assim definidos: uma associação entre conhecimentos científicos e conhecimentos metafísicos. Portanto, nenhum desses paradigmas (ou estruturas conceituais) deveria ser traduzido como uma teoria científica. Da mesma forma, o evolucionismo não deveria ser confundido com filosofia (ou naturalismo filosófico), bem como o criacionismo não seria sinônimo de religião (ou conhecimento bíblico)”.

Dentre os vários cientistas criacionistas atuais que fazem boa ciência, podem-se destacar dois biólogos norte-americanos: Leonard Brand e Harold Coffin. Ambos têm artigos publicados nos mais prestigiados periódicos científicos, respectivamente, sobre baleias fossilizadas da Formação Pisco (Peru) e sobre as florestas petrificadas de Yellowstone (EUA). No Brasil, destaca-se o químico e professor da Unicamp, Dr. Marcos Eberlin, que dirige o Laboratório Thomson de espectrometria de massas, é membro da Academia Brasileira de Ciências e o terceiro cientista brasileiro mais citado em publicações científicas de renome. Para ele, é possível fazer boa ciência e defender o criacionismo bíblico.

Criacionistas são fixistas

Essa é uma afirmação tão incorreta quanto aquela que diz ser o homem descendente do macaco (os darwinistas geralmente não afirmam isso). Os criacionistas bem informados entendem que Deus dotou os seres vivos da capacidade de variação, o que lhes permite sobreviver em ambientes diferenciados. A isso chamam de “microevolução”, ou “diversificação de baixo nível”, nas palavras do biólogo e diretor do Geoscience Research Institute, Dr. James Gibson.

Para o Dr. Aagaard, “se as populações não fossem capazes de ‘evoluir’ em resposta ao fato de o clima tornar-se mais seco, ou mais frio, ou quaisquer outras mudanças que têm ocorrido, então a extinção total seria o provável resultado”.

Assim, segundo a visão criacionista, Deus criou os tipos básicos (“espécies”) de seres vivos e eles “evoluíram” de forma mais ou menos limitada (a tal “árvore da vida” proposta por Darwin estaria para os criacionistas mais para um “gramado”). Extrapolar e dizer que todos os seres vivos descendem de um mesmo ancestral unicelular comum (“macroevolução”), isso, sim, embora teoricamente plausível, não tem sido empiricamente demonstrável.

Criacionistas odeiam Darwin e a evolução

Segundo o biólogo Tarcísio da Silva Vieira, mestre em Química pela Universidade de Brasília, professor universitário de Química Orgânica e membro colaborador da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a contribuição dada por Darwin à comunidade científica. “Entendemos que há aspectos no evolucionismo fundamentados, os quais são úteis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a interpretação de dados. A esses aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados, seja por um cientista ou por um estudante de ciências”, pondera.

Os palestrantes da SCB deixam isso evidente no trabalho que vêm realizando no País. “Por isso”, diz Tarcísio, “quando escritores desprovidos de conhecimento do que é o modelo criacionista afirmam que as teses defendidas pelos simpatizantes do criacionismo vão contra o desenvolvimento de vacinas e antibióticos, ou mesmo contra o desenvolvimento científico, estão sendo desonestos.”

A bióloga Márcia Oliveira de Paula, doutora em microbiologia e presidente do Núcleo de Estudos das Origens (NEO), do Centro Universitário Adventista (Unasp, campus São Paulo), arremata dizendo que “a teoria da evolução não consegue explicar a origem da vida por processos naturais, a partir de matéria não viva; também não consegue explicar a origem da informação genética de sistemas irredutivelmente complexos; não consegue explicar o aumento de complexidade que teria acontecido nos organismos durante o processo evolutivo, ou seja, não consegue explicar a origem de novos órgãos, sistemas de órgãos e novos planos corporais. Em relação ao registro fóssil, a teoria da evolução não consegue explicar a Explosão Cambriana [surgimento repentino de formas de vida complexas no registro fóssil]; e também não consegue explicar a falta de formas de transição entre os principais grupos de organismos”.

O que ocorre, de fato, é que, como já visto, criacionistas se opõem a aspectos do darwinismo e não têm motivos para “odiar” Darwin – ou qualquer outro ser humano. Além do mais, o que a maioria das pessoas diz que Darwin disse ou é lenda urbana, ou é derivado da teoria darwinista, e não do próprio punho dele.

Criacionistas creem no Deus das lacunas

Essa acusação faz parecer que os criacionistas colocam Deus como explicação para todas as questões não respondidas em ciência, dando a impressão de que são pesquisadores acomodados. Ao contrário disso, segundo Tarcísio, “investigar a natureza e fazer ciência é uma motivação deixada pelo próprio Deus ao ser humano. Ao observar um fato que aparentemente se oponha às teses que se acredita estarem corretas, um pesquisador criacionista simplesmente não fecha os olhos ou procura distorcer os fatos para ‘encaixar’ a realidade em sua visão de mundo”.

Um exemplo disso foi a descoberta de pegadas humanas com pegadas de dinossauros no leito do rio Paluxy, no Texas, EUA. Depois de algum tempo, conforme explica o Dr. Roberto Biaggi, diretor do Geoscience Research Institute (filial argentina), foi descoberto que as pegadas de dinossauro eram genuínas, mas as humanas, não. Quem descobriu a fraude? Cientistas criacionistas do GRI, mantido pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seria uma tremenda prova da coexistência entre humanos e dinossauros, mas a honestidade científica sempre deve prevalecer.

Essa discussão toda é entre fé e ciência

Na verdade, conforme explica o biólogo Tarcísio, o verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. Dentro desses limites, a discussão poderia ser puramente científica. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como sendo resultante da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano.

O que a mídia popular procura fazer é polarizar a discussão como se tudo se tratasse de ciência versus crendice e irracionalidade. Para Enézio Eugênio de Almeida Filho, mestre e doutorando em História da Ciência pela PUC-SP e coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, “essa controvérsia é resíduo do ranço materialista do século 19. A controvérsia no século 21 não é se as especulações transformistas de Darwin contrariam relatos de criação das concepções religiosas, mas se as evidências corroboram Darwin. Elas não corroboram, e aí está o ponto científico que deveria ser abordado ouvindo-se os dois lados publicamente. Elas apontam em outra direção: design inteligente”.

Para ele, ao desviar o foco para ciência versus religião, algumas informações divulgadas na mídia contribuem para que se evite o confronto dos verdadeiros questionamentos teóricos ao darwinismo:

1. O mecanismo neodarwinista de seleção natural agindo sobre as variações aleatórias não parece ser suficiente para produzir: (a) nova informação genética especificada; (b) sistemas e máquinas moleculares “irredutivelmente complexos”, “funcionalmente integrados” (como os motores bacterianos, circuitos de transdução de sinal ou o sistema de coagulação sanguínea; (c) novos órgãos e novas estruturas morfológicas (tais como as asas, penas, os olhos, a ecolocação, o ovo amniótico, a pele, o sistema nervoso e a multicelularidade); e (d) novos planos corporais.

2. Muitos mecanismos de mudanças evolutivas significantes não dependem de mutações aleatórias como exige o mecanismo neodarwinista, mas parecem ser dirigidos por respostas pré-programadas aos estímulos ambientais.

3. O padrão de surgimento abrupto das espécies, a falta de elos no registro fóssil, a revolução marinha no Mesozóico, o grande desabrochar de vida das plantas angiospermas não se conformam com as expectativas neodarwinistas sobre a história evolutiva da vida.

4. Evidências da biologia do desenvolvimento sugerem limites nítidos para a quantidade de mudança evolutiva que as coisas bióticas podem sofrer, lançando dúvidas sobre a teoria darwinista do ancestral comum, e sugerindo uma razão para a estase morfológica no registro fóssil.

5. Muitas estruturas homólogas (e até algumas proteínas) derivam de genes não-homólogos, enquanto que muitas estruturas dessemelhantes derivam de genes similares, contradizendo as expectativas do neodarwinismo nos dois casos.

6. Os programas de desenvolvimentos (inferidos) entre os animais metazoários do período Cambriano são dessemelhantes (ou não conservados), contrariando as expectativas neodarwinistas.

7. O código genético não tem sido “provado” universal, contrariando as expectativas
neodarwinistas baseadas na teoria do ancestral comum.

Criacionistas querem introduzir religião nas aulas de ciências

Conhecedores da laicidade do Estado brasileiro, os criacionistas bíblicos que estejam familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários das escolas públicas, uma vez que, como já foi dito, o criacionismo está associado ao conhecimento religioso. O que desejam, na verdade, é o ensino crítico do darwinismo, apontando seus erros e acertos.

A SCB, por meio de seu presidente, Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, há escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a apresentar e defender suas teses.

Não existe interesse algum (pelo menos no Brasil), ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades (tanto é que escolas criacionistas como a Adventista e a Mackenzie incluem os dois modelos em seu currículo). Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso.

Criacionistas querem unir igreja e Estado

Essa é outra afirmação falsa. Infelizmente, nos Estados Unidos, essa questão está carregada de “sabor” político, com grupos apelando até mesmo à Justiça para forçar legislações favoráveis a esse ou aquele modelo. Especialmente os criacionistas adventistas são terminantemente contra qualquer tipo de união entre Estado e Igreja, por conhecerem as consequências históricas negativas desse tipo de sociedade.

Num artigo publicado na Folha de S. Paulo de 25 de agosto de 2007, o ultradarwinista Richard Dawkins expressa bem essa visão distorcida de que haveria um “complô criacionista”: “[A tendência política ascendente nos EUA] conquista apoio eleitoral crucial de um eleitorado religioso cujo domínio da realidade é tão tênue que seus integrantes esperam ser ‘carregados em êxtase’ ao paraíso, deixando suas roupas tão vazias quanto suas mentes.” A falta de conhecimento teológico do biólogo ateu salta aos olhos, afinal, nem todos os evangélicos creem no arrebatamento secreto. Mas deixemos isso pra lá. Dawkins tenta apresentar os religiosos como pessoas obtusas e preconceituosas. Ele diz mais: “O que temos aqui não é nada menos que um ataque global à racionalidade e aos valores iluministas que inspiraram a fundação [dos EUA]. O ensino de ciências – logo, todo o futuro da ciência neste país – se encontra sob ameaça.” Será?

Recentemente, foi divulgada a notícia da inauguração do cíclotron da empresa Sistemas Médicos Varian, tido como a melhor máquina destruidora de câncer do mundo. O que pouca gente sabe é que o cíclotron (acelerador de partículas utilizado no tratamento à base de prótons) foi inicialmente utilizado pelo Hospital Adventista de Loma Linda, na Califórnia – uma instituição criacionista.

Criacionistas e darwinistas podem fazer boa ciência e não precisam apelar à política para defender religião – ou ateísmo (sim, porque Estado laico não significa Estado ateu).
Superficialidade e preconceito

São grandes os desafios do jornalismo científico numa sociedade cientificamente analfabeta. O problema é que, na busca por vender e alcançar o público, esse tipo de jornalismo acaba se tornando muito superficial (com raras exceções). A superficialidade só perde para o preconceito. O povo que ainda lê alguma coisa está aos poucos sendo condicionado para repudiar os criacionistas como (as “qualidades” que seguem foram todas usadas em reportagens e artigos) fundamentalistas, antiintelectuais, esquizofrênicos, obscuros, e por aí vai (Marcelo Gleiser chama até de “criminoso” quem ensina o criacionismo).

A abordagem jornalística salutar é a de se ouvir os “dois lados”. Isso significa que um dos principais preceitos éticos do jornalismo – o dever de jamais frustrar a manifestação de opiniões divergentes e o livre debate de ideias, nas palavras do jornalista Maurício Tuffani – deve continuar sendo perseguido em qualquer tipo de assunto.

O “ano de Darwin” ainda promete muita discussão mal focalizada. Os mal entendidos continuarão sendo impressos e veiculados por parte de pessoas que recusam se enfronhar no âmago da questão. Que os criacionistas não repitam esse erro. Grande parte deles não conhece muita coisa sobre as teorias evolucionistas e tenta combatê-las, o que torna normalmente seus argumentos frouxos e falaciosos.

As respostas devem ser buscadas. De mente aberta, mas não tanto a ponto de deixar cair o cérebro ou de permitir que o preconceito fale mais alto.

Michelson Borges

assine o feed

Postagens

acompanhe

Comentários

comente também

Créditos

100% Adventista

Site melhor visualizado no Google Chrome ou no Mozilla Firefox,
Desenvolvido por Bruno, membro da IASD Central do Rio de Janeiro.

Autores:

Clayson Albino

Daniel Santos

Editor Geral:

Bruno Vieira

Todos os Direitos Reservados © 2008 - 2013

Área Restrita

Usuário:
@comunidadeadventista.com
Senha:
Não consegue acessar a sua conta?

  © Comunidade Adventista - 2008 - 2013 | Desenvolvido por Bruno Vieira